Raiva… a doença que mais preocupa!

A Raiva é uma das doenças que mais preocupa os donos de animais, principalmente por seu caráter altamente mortal e sem cura. Essa zoonose é uma das mais antigas as quais se tem notícias e tem a maior taxa de mortalidade dentre todas as doenças infecciosas, superando outras muito temidas, como HIV, ebola, dengue e febre-amarela.

Histórico

Relatos de sua ocorrência são presenciados desde as sociedades mais primitivas, que acreditavam que cães e lobos estavam possuídos por demônios. Autores gregos e romanos estudaram o mal entre os séculos IV e I a.C., descrevendo em homens e animais sua transmissão e recomendações práticas (sucção, cauterização, excisão cirúrgica dos ferimentos). Aristóteles ainda assinalou o risco de contaminação por meio da mordida de cães infectos, mas o que realmente se acreditava era que sua ocorrência poderia se dar de modo espontâneo, por alimentos muito quentes, sede, falta de sexo ou forte excitação nervosa.

Em 1530, o médico italiano Girolamo Fracastoro trouxe um panorama mais realista: afirmou que a transmissão se dava pela saliva do animal infectado em contato com sangue do indivíduo sadio. Disse, ainda, que a doença progredia de modo lento, raramente aparecendo sintomas antes de vinte dias. Em 1880, Vitor Galtier descreveu a doença de maneira ainda mais precisa, mas foi Pasteur, em 1881, com o auxilio de Roux, Chamberland e Thuillier, que evidenciou a etiologia virótica da doença e conseguiu isolar o vírus, criando uma vacina eficaz.

Em 1884, conseguiram diminuir a virulência, e passaram a experimentar a vacina em animais. Pouco tempo depois, Pasteur o fez em humanos, começando pelo garoto Joseph Meister. A criança, de 9 anos, deu entrada no laboratório de Pasteur ao ser atacado dois dias antes por um cão ensandecido. Morrer por morrer, Pasteur decidiu aplicar a imunização já comprovadamente eficaz em cães e coelhos. Meister foi curado, no mesmo ano em que um segundo jovem obteve sucesso no procedimento, Jean-Baptiste Berger Jupille.

Modo de Infecção

O agente da Raiva é o vírus Rhabdovirus, de gênero Lyssavírus, que atinge de maneira letal o sistema nervoso do indivíduo, se instalando primeiro nos nervos periféricos, depois no sistema nervoso central e, dali, nas glândulas salivares, onde se multiplica e se propaga.

Mamíferos, em geral, são suscetíveis a contração da doença. Dentre eles, os que carregam a maior probabilidade de contaminação são os carnívoros (em especial o cão doméstico), responsáveis por 80% dos casos. Morcegos também infectam-se facilmente, mas, por sobreviverem ao mal, podem se tornar agentes transmissores do vírus, ainda mais se forem hematófagos (sugadores de sangue).

A principal fonte de infecção é por meio da saliva do doente em contato com o sangue do indivíduo sadio, seja mordendo ou lambendo feridas abertas ou mucosas. Não necessariamente o animal tem que estar com os sintomas da doença ativos para que sua saliva tenha poder de contaminação. Como os sintomas podem ficar latentes, o vírus se manifestará na saliva 10 dias antes dos primeiros indícios. Por atacar o sistema nervoso, as mordidas no rosto e braços são muito mais perigosas do que as nas pernas.

Também podemos encontrar o vírus, ainda que em menor concentração, em outras secreções, como urina e leite, e há possibilidades de contaminação por partículas no ar, desde que a concentração do vírus no ambiente seja bastante elevada, como nas cavernas onde os morcegos se alojam. Entretanto, é pouco provável que o vírus resista por um longo período de tempo exposto diretamente no meio ambiente.

O período de incubação da doença (intervalo entre a exposição ao vírus e o início da doença) é de 1 a 3 meses em média, nunca sendo menos de 3 semanas e podendo ir, raramente, a dois anos.

Sintomas e Desenvolvimento da Doença

As etapas da doença são bastante claras, ainda que seus sintomas iniciais possam ser facilmente confundidos com outros males. O doente raramente sobrevive mais do que 10 dias, já que essas etapas duram, em média, 5 ou 6 dias. O desenvolvimento basicamente se divide em duas fases, sendo que a segunda fase pode se apresentar de três maneiras:

  1. Fase Precursora (de 2 a 3 dias): O comportamento do animal apresenta mudanças e seus hábitos ficam totalmente alterados. Um animal normalmente quieto se torna demasiado ativo; já o naturalmente ativo fica nervoso e assustado. Ele procura locais escuros para se abrigar, pois suas pupilas dilatam e adquire fotofobia. Raramente atende aos chamados do dono, costuma latir com um som muito agudo e “morde o ar”. A salivação é constante e a os passos do cão podem se tornar mais rígidos, com contração da musculatura facial.
  2. Raiva Furiosa (1º forma da segunda etapa): Aqui o animal recusa alimentos e água, dada a enorme dificuldade de deglutição que sente, mas pode ocorrer a ingestão das próprias fezes. Ele se torna ainda mais excitado e irritável, o que vem acompanhado de grande violência e fúria. A boca espuma, o pêlo do dorso se arrepia e este cenário, que pode durar de 1 a 4 dias, progride para um quadro convulsivo terminal ou paralisia, caso o animal viva por um período mais prolongado, não se estendendo a 48 horas. Nessa fase também é comum o cão fugir de casa e atacar outros cães, disseminando a doença.
  3. Raiva Silenciosa (2ª forma da segunda etapa): Caso a fase furiosa não seja observada, ou seja é muito curta, então vivencia-se a Raiva Silenciosa. Dificilmente o animal vai morder, a menos que se encontre muito irritado. Vai demonstrar muita sonolência, como se estivesse intoxicado, e sua calma excederá o normal. Na sequência vem uma paralisia ascendente dos membros, começando pelo maxilar, que mantêm a boca constantemente aberta. Os sintomas vão se agravando até a morte do cão.
  4. Raiva Intestinal (3ª forma da segunda etapa): É um tipo muito raro, no qual o cão apresenta vômitos, cólicas e gastroenterite hemorrágica. Neste modelo não há sinais de paralisia ou agressividade e o animal morre em torno de 2 a 3 dias.

Nos humanos os sintomas não mudam muito, mas sofrem variações. No começo há apenas dor e coceira no local da mordida. Tem-se náuseas, vômitos e mal estar moderado. A fase excitativa seguinte traz espasmos musculares da faringe e laringe e dores fortes na deglutição, mesmo que de água. Daí provém o medo irracional à líquidos, conhecido por hidrofobia (e erroneamente empregado ao nome da doença, como se fosse uma condição geral e não apenas humana). A hidrofobia já indica morte certa e é seguida de grande hostilidade (raiva) e agressividade, alucinações, insônia e ansiedade extrema. Em raros casos se observa uma terceira fase, acompanhada de paralisia, asfixia e morte mais lenta. Durante todo o processo, que dura uma média de 4 dias, o doente está plenamente consciente do que ocorre.

Apenas 3 casos no mundo tiveram um desfecho positivo: um nos EUA, outro na Colômbia e o terceiro no nordeste brasileiro, sendo que os pacientes eram jovens entre 8  a 16 anos.

Diagnóstico e Tratamento

Antes de se confirmar ou descartar a presença da doença, certas medidas devem ser tomadas para precaver a disseminação:

  1. Isole o animal.
  2. Se uma pessoa for mordida ou tiver contato próximo ao animal suspeito, lave a ferida imediatamente com água e sabão e procure auxílio médico.
  3. Consulte o Centro de Zoonoses para que amostras sejam retiradas e enviadas a laboratórios governamentais.
  4. Ao receber o laudo do diagnóstico, encaminhe ao seu veterinário, que deverá avisar as autoridades sanitárias locais. Os demais animais expostos ou suspeitos precisam permanecer em quarentena.

Inicialmente, a presença da doença pode ser observada por meio dos sintomas anteriormente explicados. Nenhum tratamento deverá ser tentado caso o animal doente não seja vacinado e, infelizmente, a recomendação é a eutanásia (até para poupar o animal do sofrimento).  Se o dono preferir não fazê-lo, exige-se o isolamento durante 10 dias e a confirmação ou descarte da doença. Se após 10 dias ele estiver sadio, poderá retornar ao dono.

Caso o animal esteja imunizado e seja contaminado, indica-se revacinar e observar durante 90 dias.

No homem a vacinação é indicada apenas se houver suspeita de contaminação pela doença. Neste caso, a vacina deverá ser aplicada o mais rápido possível, para que o organismo consiga fabricar os anticorpos necessários em tempo hábil. A quantidade de vacinas a serem aplicadas deverá ser determinada pelo médico que acompanha o caso.

Prevenção

A Raiva está presente em quase todos os continentes, com exceção da Austrália e da Antártida. Alguns países conseguiram eliminar a doença em sua forma endêmica, como a Austrália, Bélgica, Inglaterra, Noruega, Suécia, Dinamarca, entre outros. O Estado de São Paulo vem avançando na prevenção da doença ao se utilizar de medidas profiláticas. Entretanto, os responsáveis pelas campanhas de vacinação dizem ter enorme dificuldade de estabelecer medidas efetivas de controle, principalmente no que tange a população felina. Os donos de cães são mais receptivos e aderem com maior frequência às campanhas obrigatórias, mas os donos de gatos apresentam enorme resistência.

Campanha de Vacinação de 2009

Como já ficou claro, o melhor meio de prevenir a doença é a vacinação. Existem vacinas diferenciadas para cães, gatos, bovinos / eqüinos e outros animais, e cada uma deve ser especialmente selecionada e aplicada a espécie animal a ser imunizada. Atualmente, quase todas as vacinas utilizadas constituem-se de produtos inativos.

A duração da imunidade pode ser de até 3 anos em cães ou gatos, mas, para obtermos uma imunidade máxima, é recomendável a adoção do esquema de revacinação anual. A primeira dose deve ser aplicada a partir do quarto mês de vida do bichinho (vide esquema aqui e aprenda mais sobre os cuidados e as vacinas que seu cão deve tomar!).

Informações Extras

A cura em 2004

Em 2004, foi registrado nos EUA o primeiro caso de cura dessa doença em um paciente humano que não havia tomado a vacina. O tratamento consistia no uso de sedação profunda (coma induzido) e de antivirais. Este e outros casos que se utilizaram desse método, chamado Protocolo de Milwaukee, trouxeram a possibilidade de cura para uma doença até então considerada letal. Em 2008, na cidade de Recife, ele foi aplicado a um jovem mordido por um morcego hematófago. Curado, possibilitou a reunião de dados e a elaboração do Protocolo de Recife pelo Ministério da Saúde.

Dia mundial contra a Raiva

Por iniciativa da Aliança para o Controle da Raiva (Alliance for Rabies Control), desde 2007, o dia 28 de setembro é dedicado ao combate à doença. Fundada em 2005, na Escócia, a ARC vem estabelecendo parceria com entidades de saúde nacionais e transnacionais para realizar programações que envolvam o alerta, o esclarecimento e o combate à doença em todo o planeta. Nas três primeiras edições, o Dia Mundial contra a Raiva foi responsável pela vacinação de 3 milhões de cães e o esclarecimento a 100 milhões de pessoas, em 125 países.

A vacina pode ser aplicada em qualquer clínica veterinária, mas se quiser aproveitar a campanha anual do governo, fique de olho nos meses de julho e setembro de 2011 (dependendo do seu Estado). Leia a matéria publicada no G1.

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Referências: http://pt.wikipedia.org/wiki/Raiva_(doen%C3%A7a)http://www.dogtimes.com.br/raiva.htm ; http://www.saudeanimal.com.br/artig175.htmhttp://www.saudeanimal.com.br/raiva_caes_gatos.htm

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