E quem já não ouviu falar na Displasia Coxo Femural?

Quem já leu meus posts sobre raças (principalmente as de grande porte) provavelmente se deparou com o nome acima descrito. As displasias em geral, e a coxofemural em particular, são muito comuns em diversos animais. Mas, de que raios isso se trata?

Displasia coxofemural (DCF) é uma doença ortopédica que pode surgir em qualquer raça, mas que é mais comum nas raças grandes ou gigantes e que podem apresentar um crescimento muito rápido, como Rottweillers, Pastores e Filas. Ela é caracterizada pela má formação da articulação coxofemural (inserção do membro traseiro na cintura pélvica… ou, em outras palavras, encaixe do fêmur com a bacia). Raramente é diagnosticada em cães com menos de 12kg e, quando acontece, não apresenta as mesmas alterações ósseas típicas de cães mais pesados.

A DCF pode ser desencadeada por uma série de fatores, onde a hereditariedade é a mais conhecida entre os criadores. Contudo, fatores ambientais estão envolvidos na manifestação do fenótipo anormal, especialmente pisos lisos.

Sintomas e Desenvolvimento da Doença

Normalmente, os primeiros sintomas aparecem por volta dos 4 aos 7 meses de vida. Torna-se nítida a dificuldade de andar do animal, que começa a mancar e a sentir dor ao se movimentar, principalmente nos pisos mais escorregadios. A inibição do caminhar pela dor pode fazer o animal parar de se mexer, atrofiando a musculatura.

Entretanto, um cão com a doença pode não apresentar os sintomas de maneira tão evidente, e nos mais jovens a dor pode desaparecer por um tempo e retornar mais tarde. Nem todos os cães com predisposição genética desenvolvem a doença. O cão não nasce com a displasia, mas a influência de fatores ambientais, alimentares, o excesso de exercício, etc, somados ao fator genético, despertam o desequilíbrio entre a massa muscular e o desenvolvimento esquelético. Os sinais clínicos vão depender demais das condições as quais o animal é apresentado durante seu crescimento. Dietas de elevado teor energético, de cálcio e de vitaminas devem ser evitadas durante o desenvolvimento.

Sendo uma doença de caráter genético recessivo, tanto o macho quanto a fêmea precisam ter o gene da doença para que os filhotes também o tenham. Infelizmente essa deficiência se tornou comum por conta de proprietários que cruzaram seus animais sem se preocupar na disseminação do problema. Convenhamos, um dono consciente não permite que novos animais nasçam com possibilidade de viverem condenados por uma doença. Enfim…

Os fatores mais fortes na contribuição para o surgimento da doença em animais geneticamente predispostos são o rápido ganho de peso e o crescimento acelerado. Aparentemente, um estudo feito em Labradores demonstrou uma redução significativa no desenvolvimento da doença em cerca de 25% dos exemplares em um grupo de animais com alimentação controlada, diferentemente de um grupo com a alimentação sem controle.

A raça também influencia no modo como a doença de desenvolve, levando em consideração a disparidade entre a massa muscular primária e o crescimento esquelético desproporcionalmente rápido, levando a uma instabilidade articular. A instabilidade leva a frouxidão da articulação e uma sub luxação. Nessa etapa o animal pode ainda não se apresentar manco ou com uma rigidez evidente. Alguns animais jovens demonstram sintomas agudos após exercícios e caminhas, enquanto outros apresentam uma repentina redução nas atividades e o aparecimento de uma sensibilidade nos membros pélvicos. Casos isolados tem alterações ósseas que desaparecem com o completo desenvolvimento do esqueleto, e é onde encontramos animais assintomáticos, ou seja, que estão isentos de uma dor significativa.

Cães mais velhos podem se encaixar em um quadro clínico diferenciado, uma vez que as pequenas alterações, aparentemente assintomáticas, podem ter evoluído para uma doença degenerativa, na qual o animal demonstra dor por meio da dificuldade de levantar, caminhar, brincar, e exibe um olhar triste, com humor e temperamento alterados.

E não pense não, mas gatos também são vítimas da DCF. Raças puras parecem ser mais acometidas e compromete-se, normalmente, ambas as articulações.

Diagnóstico e Tratamento

Ainda que o cão não apresente sintomas muito intensos, é difícil não perceber algo estranho com ele quando está acometido pela DCF. Mesmo sendo variáreis os sinais, o andar costuma ficar anormal, ele tem dificuldades para se sentar e levantar, o movimento fica comprometido após exercícios e corridas e ele apresenta dor ao ser manuseado.

A confirmação, entretanto, só pode ser obtida por meio de diagnóstico radiográfico. O animal é deitado de barriga para cima, com as patas traseiras esticadas para trás. Como esse movimento pode causar fortes dores por conta do estado da displasia, talvez seja necessário anestesiar o cão. Geralmente é aplicada uma anestesia curta, que dura de 10 a 20 minutos, tempo necessário para fazer a radiografia. O veterinário tem que ser cuidadoso no posicionamento do animal durante o procedimento, pois radiografias com mau posicionamento são consideradas inadequadas para se obter um laudo definitivo.

A DCF pode ser classificada de acordo com a sua gravidade, levada em conta na hora de definir o melhor tratamento.

Alguns criadores mais engajados e alguns donos mais preocupados podem exigir dos reprodutores um laudo de displasia, para se certificarem que o resultado desse cruzamento não trará malefícios aos filhotes. O único órgão com autorização para emitir esse laudo é o Colégio Brasileiro de Radiologia Veterinária (CBRV). Mas existem alguns pré-requisitos para que eles o façam:

– A radiografia das articulações dentro dos padrões estabelecidos pela CBRV

– Cópia autenticada do Pedigree do animal

– Termo de responsabilidade do veterinário

– Termo de responsabilidade do proprietário

Além disso, para se obter o laudo conclusivo, o exame é feito no animal com 12 meses de idade. Nas raças gigantes, como São Bernardo e Mastiff, esse exame deve ser feito aos 18 meses. Porém, exames preliminares podem ser realizados a partir dos 7 meses (sem caráter de laudo) com a finalidade de controlar melhor a doença, impedindo que o cão sinta muita dor.

No que diz respeito ao tratamento, algumas opções são apresentadas. Entretanto, reforço que cabe ao veterinário (e apenas ao veterinário) dizer qual tratamento melhor se enquadra na situação de cada animal. Se você sentir dúvida a respeito do diagnóstico ou tratamento a ser realizado, não meça esforços e busque mais de uma opinião clínica.

Osteotomia tripla – Animais Jovens

Cães que exibem sinais clínicos com menos de um ano de idade podem receber alívio nas dores e no sofrimento mais tarde por meio de um tratamento mais agressivo, aliado à cirurgia denominada de osteotomia tripla, que parece obter uma taxa elevada de sucesso quando feita no tempo apropriado.

Prótese total da anca

Cães que exibem os sintomas após a fase de crescimento requerem um tipo de tratamento diferente. Primeiro, precisa-se determinar se a situação pode ser controlada com um tratamento menos invasivo com o objetivo apenas de manter o nível de conforto do animal. Caso isso não seja possível, a cirurgia pode ser a melhor solução. A opção é a prótese total da anca, na qual se remove o acetábulo danificado e a cabeça femoral (é… nomes complicados!) e os substitui por componentes artificiais. A dor é eliminada quase por completo, e eleva esse procedimento a uma das primeiras escolhas para o tratamento da doença.

Ablação da cabeça do Fêmur

Esta pode ser uma cirurgia que vai além dos recursos financeiros do proprietário do animal. Neste procedimento, a cabeça femoral é removida. Isto elimina a maioria do contato osso a osso e pode reduzir a dor substancialmente.

Medicação

Quando um cão mais velho exibe os sintomas associados à displasia é possível tratá-la apenas com medicação. O exercício regular pode ser muito útil e a perda de peso pode ter efeitos sensíveis na redução do desconforto sofrido pelo cão. Sempre verifique com o veterinário a melhor solução para seu cão.

Prevenção

Por ser uma doença de caráter fortemente genético, o melhor para a prevenção é evitar que cães portadores do problema ou do seu gene procriem. Isso porque o cão pode até não demonstrar os sintomas, mas se ele for portador do gene, pode repassá-lo a gerações futuras que perpetuariam a situação se encontrassem um parceiro que também carregue o gene.

Agora, para os que não escaparam da genética, algumas providências podem ser tomadas para evitar ou minimizar os efeitos da moléstia:

  1. Controle de peso, não permitindo a obesidade.
  2. Cuidados e uso de rações específicas para manter adequado o desenvolvimento do filhote, evitando o crescimento rápido e exagerado.
  3. Natação a partir dos 3 meses de idade, com a finalidade de desenvolver a musculatura pélvica.
  4. Exercícios moderados, também recomendados a partir dos 3 meses.
  5. Filhotes recém nascidos devem ficar em área de superfície áspera, evitando escorregões que forcem a articulação de forma errada. Cães crescidos também devem evitar o piso liso.
  6. E por último, REFORÇANDO: Não permitir a reprodução de animais que tenham o gene da doença.

Seja um dono consciente e faça o exame em seu cão. Garanta a felicidade dele (e a sua!).

Referências: http://www.saudeanimal.com.br/artigo1.htm ; http://www.hospvetprincipal.pt/displasiadanaca2.html (todas as imagens de radiografias foram retiradas deste site); http://www.webanimal.com.br/cao/index2.asp?menu=ortopedi.htm ; http://www.dogtimes.com.br/displasia2007.htm

 

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